"Quando o assunto é dinheiro, todo mundo professa a mesma religião." (Voltaire)
Como diz o ditado chinês: "O peixe vê a isca mas não vê o anzol. Os homens veem o lucro, mas não os perigos." Quando temos uma dor de dente, via de regra buscamos os serviços de um dentista por ser alguém que conhece do assunto e pode resolver o nosso problema. O mesmo ocorre quando precisamos fazer um seguro de automóvel ou de casa, por exemplo, e vamos procurar a assessoria de um corretor, profissional que domina o leque de oferta e que pode nos oferecer o pacote mais adequado às nossas necessidades e expectativas. Se o computador que usamos para por algum motivo, chamamos um técnico para identificar as causas e colocá-lo novamente em funcionamento.
Por que, então, não tomamos atitude semelhante quando se trata de cuidar dos recursos financeiros que dispomos? Daquela poupança conquistada ao longo de anos como resultado de esforço e dedicação? Daqueles valores que vimos reunindo para fazer movimentos importantes como a compra de uma casa melhor ou a troca de carro por um mais novo ou maior ou mesmo para fazer aquela viagem tão sonhada ou até para aumentar nosso pé de meia de modo que possamos ter uma aposentadoria mais confortável?
Eis aqui uma questão que deve ganhar relevância ainda maior. Até porque o cenário econômico dá sinais claros de uma retomada, ainda que tímida e sujeita a algumas instabilidades, como a da moratória de seis meses decretada pela empresa de investimentos de Dubai, a Dubai World, divulgada no dia 26 de novembro.
E, todos sabemos: quando a economia caminha bem, há mais empregos, há crescimento da renda, há estímulos ao consumo e também às aplicações financeiras. Também, por decorrência, aumentam as ferramentas e as opções de investimento, assim como sofisticam-se os mecanismos tributários e de controle, exigindo cada vez mais tempo, dedicação e conhecimento dos investidores.
É neste cenário que se insere a figura do especialista em gestão de investimentos - alguém que domine esses mercados, que conheça as marés, que sirva de interlocutor e decodificador entre quem tem recursos para investir e o mercado -, e que passa a ser decisivo para uma relação sadia e de longo prazo com aplicações financeiras.
Partindo-se do simples pressuposto que o mercado é o local onde compradores e vendedores se encontram para negociar bens, quaisquer que sejam eles e pelas mais diversas razões - e que o mercado de valores desempenha papel fundamental ao conectar as economias real e financeira -, torna-se relativamente fácil compreender que a complexidade de mecanismos operacionais de investimentos, aliada à dinâmica de determinados setores, exige conhecimento específico e substancial alocação de tempo para que se consiga tirar o melhor proveito das oportunidades de investimento e minimizar os riscos.
A Bovespa vem apresentando neste ano resultados espetaculares. Qualquer pessoa que não teve coragem ou não soube como investir na bolsa, diante dos números que vêm sendo apresentados, deve estar se lamentando. Mas há de se considerar que investidores de ações que mantiveram recursos aplicados no mercado desde o início de 2008, praticamente só agora conseguiram reequilibrar sua posição: uma prova que este tipo de investimento deve focar o médio e longo prazos e que os investidores têm de estar preparados para aguentar turbulências nem sempre curtas.
Conseguir ver tudo e todos os movimentos, perceber as tendências, compatibilizar maior ou menor propensão a risco versus expectativas de resultados, conhecer as regras tributárias, tudo isto faz parte do papel do especialista financeiro e torna muito difícil (para não dizer impossível) a realização desta atividade por qualquer outro tipo de especialista, seja um dentista, um eletricista, um advogado, um técnico em computação ou até mesmo um médico.
Fonte: Valor Econômico