Em seu livro "Margin of Safety", Seth Klarman faz uma interessante, e não óbvia, distinção entre o que ele chama de ativos de investimento e ativos de especulação. Assim como os participantes do mercado podem ser divididos em investidores e especuladores, os ativos negociados também podem ser divididos em investimentos e especulações.
A diferença entre esses ativos não é tão clara para a maioria das pessoas. Tanto ativos de investimento como de especulação podem ser comprados e vendidos. Ambos têm preços que flutuam ao longo do tempo e podem dar a impressão de que estão gerando retornos para seus detentores, mas há uma diferença fundamental entre eles: ativos de investimento geram caixa em suas atividades, em benefício de seus detentores; ativos de especulação não geram caixa.
O retorno dos detentores de ativos de especulação depende exclusivamente da capacidade de vender esses ativos para terceiros em algum momento no futuro. Ou seja, caso não existam compradores interessados no futuro, os detentores podem ver o valor de seu ativo rapidamente convergir para zero.
Uma ferrovia que transporta cargas constantemente gera retornos para seus donos, assim como um edifício ocupado por locatários que pagam aluguéis ou o maquinário de uma indústria. Estes podem ser considerados ativos de investimentos. Por outro lado, artigos colecionáveis ou obras de arte só geram caixa na eventualidade de serem vendidos e seu valor flutua exclusivamente como função de oferta e demanda.
Essa lógica deve ser observada ao se considerar a compra de ações de uma companhia. Preços de ações sobem e descem ao longo do tempo, assim como preços de Picassos, coleções de selos e carros antigos, e há uma tendência natural das pessoas de querer possuir qualquer coisa que venha subindo de preço recentemente, mas não deve haver confusão entre investimentos e especulações. Se a compra das ações for puramente especulativa, ou seja, motivada pela crença de que por que as ações daquela empresa têm subido de preço recentemente provavelmente continuarão subindo, o comprador das ações pode ter uma surpresa desagradável.
Ao se comprar ações de qualquer companhia, deve-se entender o que se está comprando e quanto se está pagando por isso. Variáveis relevantes devem ser avaliadas, como a posição competitiva da empresa, barreiras de entrada do negócio, qualidade dos executivos, governança, entre outros. Idealmente, deve-se buscar comprar ações de empresas com foco na criação de valor para os acionistas, com vantagens competitivas sustentáveis, que apresentem alto nível de governança e que negociem com descontos significativos em relação aos seus respectivos valores intrínsecos.
Em ambientes de otimismo, a diferença entre investimentos e especulações não se sobressai de forma tão evidente, mas em crises a diferença torna-se mais óbvia. Ao se comprar ações de empresas que geram valor para seus acionistas, pagando por elas preços razoáveis, um investidor tem ao seu lado um aliado significativo: a geração de caixa do negócio que estão comprando.
Mesmo nos momentos em que os mercados financeiros estejam mal-humorados e os ativos depreciados de forma geral, esse investidor não precisa entrar em pânico e vender suas ações, pois entende o valor e o conforto que a geração de caixa do negócio traz para ele. Essa geração de caixa da empresa pode se traduzir em pagamentos de dividendos aos acionistas, reinvestimento no próprio negócio aumentando a base de ativos lucrativos (caso a taxa de reinvestimento seja interessante), recompra de ações, entre outros fatores geradores de valor para os acionistas.
No curto prazo, muitas vezes vemos os preços de ações se distanciarem de seu potencial de geração de caixa, mas no longo prazo, necessariamente, há uma convergência entre o retorno dos acionistas e a geração de caixa do negócio. Boas empresas, bem geridas, lucrativas e compradas por preços adequados tendem a gerar retornos significativos para seus acionistas. Essa ótica faz com que os investimentos, de forma geral, sejam menos arriscados e com retornos mais certos do que especulações.
A possibilidade de investir em ações não deve ser vista como um entretenimento ou um hobby. O sucesso em investimentos requer uma abordagem e uma mentalidade apropriada. Qualquer pessoa que participa dos mercados financeiros deve fazê-lo como um investidor e não como um especulador e deve conseguir reconhecer a diferença entre eles. A falha em fazê-lo pode custar alguns anos de poupança e, como consequência, uma aposentadoria menos confortável.
Fonte: Valor Econômico