Muito tem se falado sobre as finanças comportamentais - ou, da sua origem, a economia comportamental. Principalmente depois da recente crise, quando vimos os modelos tradicionais de previsão econômico-financeira serem vigorosamente contestados, ambas estão nas manchetes em todo o mundo. E o mais interessante é que p assunto aparece não só na imprensa mais especializada, mas também vemos discussões em jornais e revistas em geral.
Mas além de contestar os modelos tradicionais e identificar efeitos como sobrerreação dos mercados, poucas contribuições de ordem mais prática foram observadas. Até aqui todos os estudos se resumem a constatar fenômenos que mostram que a teoria tradicional não tem sustentação e que aspectos relacionados ao comportamento dos indivíduos são muito importantes para a definição do comportamento dos mercados.
Mas essas contribuições de ordem mais prática existem. A mais óbvia advém da mudança da visão que temos do investidor. No modelo tradicional, baseado nos estudos de Markowitz e Sharpe entre outros, os investidores são vistos como uniformes, todos racionais e baseando suas decisões financeiras em dois parâmetros apenas: risco e retorno. Em suma, um ser bastante limitado e com comportamento previsível.
Em finanças comportamentais, os investidores são vistos sob uma perspectiva mais individual. Isto é, do comportamento massificado preconizado pela teoria tradicional e facilmente previsível, migramos para uma visão mais pessoal. Além disso, saímos da decisão racional baseada em risco e retorno e caminhamos para um modelo de decisão muito mais baseado em objetivos do investidor, que são muito mais complexos do que os dois parâmetros da teoria tradicional faziam supor.
Isso tudo sugere um novo processo de construção de carteiras de investimentos. Se antes dizíamos que essa construção estava centrada na redução de risco baseada em correlações, hoje sabemos que a carteira de investimento tem um formato de pirâmide dividida em faixas, na qual cada uma atende a um objetivo específico do investidor. Tem semelhanças com a pirâmide das hierarquias de necessidades de Maslow. A faixa inferior serve na imensa maioria dos casos ao objetivo de proteção contra a pobreza. Isto é, o investidor busca proteção acima de tudo. E para uma parte substancial dos investidores, essa faixa ocupa toda a pirâmide. As seguintes atendem a diferentes objetivos, como aposentadoria, educação dos filhos, lazer e outras. Na ponta da pirâmide vamos encontrar uma faixa dedicada à busca de oportunidades. Pouca ou nenhuma relação com a diversificação baseada em correlações que reinou durante tanto tempo entre nós.
Essa nova visão da construção de carteiras explica uma série de comportamentos como o investimento em ativos de baixo retorno como imóveis ou mesmo a recente falta de ação dos investidores em relação à menor remuneração apresentada pelos fundos de renda fixa vis-à-vis a caderneta de poupança. Claro que quem está procurando proteção olha antes para a segurança e só depois para retorno.
Esses conceitos nos levam a uma nova postura em relação à função dos conselheiros de investimentos. Em vez de definir de forma automática e fria o perfil de risco do investidor e, a partir daí, sugerir a carteira de investimentos mais apropriada - carteira aliás que nunca tem aderência com os sentimentos do investidor -, o conselheiro deve conhecer e analisar os diferentes objetivos do investidor. E só então sugerir classes de ativos apropriadas a cada um.
Isso também tem implicações na oferta de produtos. É voz corrente no mercado que os investidores querem máxima liquidez nos seus investimentos. Mas assim como outros aspectos do mercado mudaram nos últimos anos, é hora também de olhar para a liquidez.
É preciso começar a ofertar produtos de investimentos de mais longo prazo, com rentabilidade compatível com esse prazo, e aqui falamos em muitos anos, que estejam alinhados com os objetivos dos investidores. Por exemplo, produtos de investimentos, e não apenas seguros, que tenham como propósito garantir a educação dos filhos. As instituições que saírem na frente e lançarem esses produtos certamente vão colher os frutos num futuro próximo.
É hora de repensar a relação conselheiro de investimento X investidor e pôr em prática os conceitos desenvolvidos por Kahneman e Tversky há quase 30 anos
Fonte: Valor Econômico