terça-feira, 04 de agosto de 2009 Mercado de Ações

Contra a maré: as dificuldades de investir no longo prazo

8322600090 Quando se fala em comprar ações, normalmente se associa a uma modalidade de investimentos que requer uma visão de longo prazo. Entretanto, é comum observarmos que os investidores que permanecem longos períodos de tempo com as mesmas ações são rara exceção e não a regra. O comum é que investidores em ações comprem e vendam suas posições diversas vezes, em curtos períodos. Estudos em diversos mercados indicam que o tempo médio que um investidor mantem uma ação em carteira diminuiu nas últimas décadas. Tentamos entender a razão para isso e identificamos quatro fatores.

O primeiro é consequência de uma característica humana. Independentemente das descobertas dos estudos relacionados às finanças comportamentais, é intuitivo assumirmos que o ser humano não está preparado para a inatividade. O natural é ser ativo, fazer alguma coisa. Manter uma ação em carteira por vários anos não é natural. Ainda mais considerando o imediatismo e a velocidade com que as coisas ocorrem na sociedade em que vivemos. Vale lembrar que essa mesma ação será negociada diariamente no período que o investidor a tiver em carteira, oscilando positiva e negativamente.

O segundo ponto tem a ver com o grande volume de informações que circula hoje em nossa sociedade. Segundo Richard Saul Wurman, em seu livro "Information Anxiety", uma edição diária do jornal "The New York Times" contém mais informação que uma pessoa comum da Inglaterra do século XVII teria visto em toda a sua vida. A internet como fonte de informação em tempo real torna esse fluxo ainda mais exacerbado. Para o potencial investidor, esse bombardeio de informações acaba sendo possivelmente prejudicial para a formação de seu julgamento.

O terceiro ponto se relaciona com a estrutura do mercado acionário. Corretoras de valores ganham dinheiro com atividade, não com inatividade. Em outras palavras, a maior parte da receita das corretoras é apurada na corretagem de compra e venda de ações. Por isso, o foco das propagandas dessas instituições é a atividade de comprar e vender, as estratégias de prazo mais curto, o grafismo etc. Um cliente com menos recursos e mais atividade é melhor que um cliente com mais recursos e menos atividade. As próprias corretoras ajudam a gerar e fornecer ainda mais informação para seus clientes por meio de seus relatórios, carteiras recomendadas, canais de TV ou chat. Todo esse fluxo gera um "momentum" propício ao trading.

Finalmente, uma característica sadia da regulamentação brasileira tem seu lado negativo. A necessidade de publicar cotas dos fundos abertos, diariamente, certamente traz uma robustez e um benefício enorme para o sistema de fundos brasileiro. Nunca seríamos capazes de argumentar a favor de qualquer mudança. Achamos o sistema como um todo muito bom. Entretanto, não tem como negar que a disponibilização das informações das cotas e suas variações diárias criam ansiedade nos investidores e propensão ao imediatismo, já característico do ser humano.

Somando todos os pontos citados à facilidade de se negociar ações via home broker (basta clicar poucas vezes para se fechar um negócio), achamos natural a dificuldade de o investidor médio ter um viés cada vez mais de curto prazo. Se entre os profissionais do mercado esse imediatismo dificilmente é domado, entre os amadores não é diferente.

Felizmente, para aqueles que têm um horizonte de investimento de longo prazo, são essas diferenças de comportamento que criam as oportunidades para obter um retorno diferenciado. Para os investidores de longo prazo, a bolsa existe para servir aos seus objetivos e não para incitá-los a tomar alguma iniciativa não desejada por impulso. Em nosso caso, a bolsa de valores é apenas um mercado onde é prático comprar e vender participações em empresas. Assim, podemos manter um ativo em carteira pelo prazo que nos seja conveniente.

Não acreditamos na existência de uma única estratégia vencedora. O investimento em ações de longo prazo (comprando-se ativos adequados) é a estratégia que conhecemos profundamente, que possui vasta comprovação acadêmica a seu favor e que tivemos excelentes resultados ao longo dos últimos anos. Qualquer estratégia é válida, desde que gere resultado de forma consistente.

O objetivo deste artigo é apenas chamar a atenção para o ambiente em que os investidores atuam. Dessa forma, cada um poderá se preparar para as armadilhas de curto prazo e controlar o nível de atividade de suas transações.

Fonte: Valor Econômico

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