Como ocorre em qualquer campo de atuação, na gestão de recursos também se observa uma enorme diversidade de abordagens que visam o mesmo fim. Tratarei aqui daquelas usadas para nortear investimentos em ações.
A despeito do que diz a literatura e de minhas próprias crenças, é fato notório que há abordagens inteiramente diferentes que são utilizadas por investidores igualmente bem-sucedidos. No entanto, chama a atenção não a diversidade de métodos, mas sim a mudança praticamente "mágica" no método empregado pela maioria das pessoas quando o tema investimento é associado às palavras bolsa ou ações.
É com curiosidade que vejo homens de negócios em geral e mesmo profissionais do ramo de investimentos mudarem seus paradigmas de análise de investimentos quando se trata do investimento em empresas abertas com ações cotadas em bolsa de valores. Explico melhor: a maioria das pessoas com algum treinamento e/ou experiência de negócios, ao avaliar o investimento em algum projeto ou empresa, utiliza uma abordagem similar àquela conhecida como fundamentalista.
Ao analisar o investimento em um restaurante, por exemplo, o investidor avalia a qualidade da cozinha, se o serviço é atencioso, se há um público fiel e recorrente, se a localização é adequada, quais têm sido os retornos e margens, o número e a qualidade dos competidores na região, se há pontos disponíveis para novos estabelecimentos etc. Caso essa análise traga resultados animadores, é feita uma estimativa do fluxo de caixa futuro do restaurante e consequentemente do seu valor potencial. Esse processo traz muitas dúvidas e só uma certeza: a de que as coisas não acontecerão exatamente como planejadas e projetadas inicialmente. No entanto, se a análise tiver sido bem feita, uma boa equipe de executivos pode fazer com que os objetivos gerais do negócio sejam atingidos e o investimento seja bem-sucedido.
Desse modo, sabe-se - e até mesmo espera-se - que ocorram percalços ao longo do caminho, como, por exemplo, uma obra da prefeitura na principal via de acesso ao restaurante, ou a necessidade de troca do chef de cozinha. Nem por isso, no entanto, o mérito do negócio está invalidado e o investidor não se desespera e tenta vender ou fechar o restaurante ao menor imprevisto. Ele sabe que haverá imprevistos, sempre.
No entanto, observamos que não é incomum esse mesmo investidor, ao analisar o investimento em uma empresa com ações cotadas em bolsa de valores, mudar - às vezes drasticamente - seu processo de análise e avaliação e passar a considerar variáveis como: com o evento "x", o lucro trimestral será inferior ao esperado pelo mercado; a empresa é excepcional, mas o setor está fora de moda; a volatilidade das ações está alta demais, o beta histórico da ação... Enfim, por se tratar de um investimento em bolsa, toda a sorte de variáveis e conceitos são adicionados ao processo de análise e decisão.
Além de interessante, a observação desse fenômeno traz à tona alguns pontos de extrema importância para o investidor. Se por um lado há diferentes abordagens para o investimento em ações que podem ser bem-sucedidas, há uma que garante o prejuízo: a mistura de abordagens que são dominadas pelo investidor com outras que ele não domina plenamente. Isso sem falar no processo de investimento em que não se domina nenhuma abordagem...
Como corrigir esse viés quando se considera o investimento em bolsa? Bem, primeiramente, selecionando uma abordagem com a qual o investidor se sinta confortável, que faça sentido e seja coerente com a maneira como ele analisa ou acha que devem ser analisadas oportunidades de investimento em empresas. Em segundo lugar, fazendo uma autocrítica com o objetivo de determinar se a abordagem selecionada é dominada ou apenas conhecida, o que são coisas bastante diferentes.
A simplicidade conceitual da abordagem fundamentalista pode ser enganosa e contrasta fortemente com as complexidades de sua aplicação. Além disso, se levado em conta o número mínimo de anos para que a experiência funcione - como uma liga que junta todos os aspectos necessários ao seu uso bem-sucedido -, ficam claros o risco e o custo potencial de seus usos inadvertidos. Uma solução possível para aqueles investidores que não dominam sua abordagem de análise e investimento preferida é a seleção de um gestor profissional idôneo e competente naquela abordagem selecionada.
Fonte: Valor Econômico