O ano de 2008 nos proporcionou mais um exemplo clássico da fragilidade das previsões realizadas pelos "experts" no campo econômico. Como variáveis mais relevantes podemos citar os grandes erros cometidos pelo mercado financeiro, tanto em relação à bolsa de valores quanto com a taxa de câmbio.
No início de janeiro de 2008, eram quase unânimes as vozes de especialistas do mercado financeiro prevendo que as bolsas de valores figurariam pelo sexto ano consecutivo nas primeiras posições do ranking dos melhores investimentos do ano. Já o dólar continuaria em seu processo de queda. Era consenso que o Índice Bovespa estaria na faixa dos 70 mil a 80 mil pontos no fim de 2008. O que se viu, no entanto, foi o índice em 37.550 pontos, com queda de 41,2%. Em relação ao dólar, se previa sua cotação em R$ 1,80, quando na realidade a moeda americana fechou o ano a R$ 2,335.
A oportuna comparação entre a projeção dos especialistas e a realidade deve servir de alerta para que utilizemos com senso crítico tais previsões. Como em qualquer outra área, a unanimidade nas projeções deve sempre passar pelo filtro da análise crítica. Nota-se ao checar as previsões efetuadas, ano após ano, que a margem de acerto é bem baixa. Não estou defendendo que simplesmente sejam ignoradas essas projeções, já que elas são feitas com base numa realidade mutante. Aconselho apenas que a leitura das análises seja feita com cautela. Normalmente as previsões falham, pois não consideram reversões de tendência e eventuais novos eventos.
No caso específico da bolsa de valores, podemos afirmar que pela característica inerente a esse tipo de investimento e sua natural e grande volatilidade (oscilação), é de previsão muito mais difícil em comparação às outras variáveis da economia. Além disso, a bolsa normalmente antecipa possíveis alterações de curso da economia. Não é à toa que é considerada renda variável e não fixa, pois não há como prevê-la com exatidão. Diferentemente de outros ativos, quanto menor o prazo, mais difícil a previsão e vice-versa.
No fim de 2007, escrevi sobre minhas preocupações com a evolução do mercado acionário global, em particular com o brasileiro. Completávamos o quinto ano consecutivo de alta na maioria das bolsas ao redor do mundo, situação pouco comum na economia capitalista mundial e com raros paralelos históricos. Normalmente temos períodos de realização de lucros para, em seqüência, retomarmos as altas.
Em momentos de euforia, como o passado recente, a psicologia de massas tem muita influência, pois o efeito manada se instala e todos, com raras exceções, ajudam a realimentar o processo de alta. Ao se considerar os dados históricos, ficava patente que estávamos vivenciando uma bolha acionária de caráter global, o que levaria a uma forte correção de preços no futuro. Só não se sabia exatamente quando isso iria ocorrer.
Infelizmente, essa correção começou durante o ano de 2008, levando a maioria das bolsas a apresentar perdas em dólares da ordem de 40 a 70% desde as máximas atingidas. Os "experts", entretanto, ficaram até o último instante alimentando o otimismo do mercado, sem alertar devidamente os investidores em relação ao aumento dos riscos a que estavam expostos devido aos excessos que vinham ocorrendo nos preços.
Muitos investidores, numa mistura de desejo e ingenuidade, acreditam que os "experts" em mercado financeiro e investimentos possuem uma espécie de bola de cristal que os orientará sobre o comportamento futuro dos diversos ativos no curto prazo. Em tempos de grandes oscilações, como o atual, a esperança em torno dessa inexistente bola de cristal aumenta ainda mais. Esses profissionais, pressionados por conta dessa expectativa do mercado, muitas vezes acabam se travestindo de visionários, alimentando a fantasia e produzindo, fatalmente, desilusões e prejuízos.
Não convém, portanto, acreditar cegamente nas previsões. É importante ter consciência do que o investidor pode obter. Em primeiro lugar, é preciso não se iludir com a possibilidade de que é possível conseguir a indicação precisa sobre o comportamento dos diversos ativos. Em segundo, é necessário ter uma perspectiva histórica dos preços dos ativos, pois não há alta que sempre dure, ou baixa que nunca se acabe. E, finalmente, utilizar essas orientações somente como um simples auxílio para criar nossos próprios cenários do futuro dos mercados.
Fonte: Valor Econômico