terça-feira, 02 de dezembro de 2008 Economia

Keynes e os investimentos em tempos de crise

1428300365 Atualmente, a mídia menciona que as idéias de Keynes estão por trás da ampla intervenção governamental nos mercados, como foi feito nos anos 30, para lidar com as conseqüências do Crash de 1929. Nada é falado sobre o Keynes gestor de fundos de investimentos durante os turbulentos anos das décadas de 30 e 40.

Keynes foi gestor do The Chest Fund pertencente ao King's College durante 18 anos (1928-45) e obteve um retorno de 13,2% ao ano enquanto que o retorno do mercado britânico foi negativo em 0,5% ao ano. Além disso, ele gerenciava um "pool" de investimentos com recursos próprios e de amigos. Ressalte-se que sua estratégia continua sendo atualíssima, com ou sem crise.

Uma observação de Keynes na Teoria Geral do Emprego, Juro e Moeda (página 151) - "Não faz sentido construir uma nova empresa a um custo superior ao preço que pode ser comprada uma empresa similar já existente" - serve de base a um método para identificar barganhas em tempos de crise.

Baseado nisso, James Tobin, prêmio Nobel em Economia, desenvolveu o índice Q, que corresponde ao preço de mercado dos ativos ("Enterprise Value") dividido pelo valor de reposição/reprodução. A situação ideal é quando o índice Q está bem abaixo de 1 e a empresa possui vantagens competitivas sustentáveis e baixo endividamento. Cabe uma ressalva no uso desta fórmula. Caso o setor onde atua a empresa tenha excesso de capacidade e uma rentabilidade abaixo do custo de oportunidade, é razoável esperar que o preço de mercado dos ativos esteja abaixo do valor de reposição.

Outro método de avaliação para os tempos de crise, é o "net-nets" desenvolvido por Ben Graham nos anos 30. Ele fornece uma estimativa do valor de liquidação da empresa. A atratividade destes métodos é que não é necessário fazer projeções, principalmente quando a incerteza é extremamente alta, que é o caso, no meio de uma crise.

O leito mais cético poderá dizer: "Eu não sou Keynes e essas idéias não são aplicáveis hoje". Ledo engano. É possível aplicar o índice Q atualmente. Há o exemplo da cervejaria Quilmes em março de 2002, em meio à maior crise da Argentina. Veja o link: www.valueinvestorsclub.com/Value2/Idea/ViewThread.aspx?id=631 &page=0&msgpage=0.

No memorando ao comitê do King's College, em 3 de maio de 1938, Keynes descreve os três princípios que governam sua estratégia:

1) "Efetuar uma seleção cuidadosa de poucos investimentos tendo em vista o seu preço atrativo com relação ao atual e potencial valor intrínseco para um período de anos à frente e em comparação às outras alternativas de investimento existentes";

2) "Manter com determinação uma posição substancial nesses investimentos, nos bons e maus momentos, talvez por vários anos, até eles mostrarem que realizaram o seu potencial ou ficar evidente que eles foram comprados erroneamente";

3) "ter uma posição de investimentos equilibrada; isto é uma variedade de riscos apesar das posições individuais serem grandes e, se possível, riscos opostos. Por exemplo: deter ações de mineradoras de ouro entre as posições de ações considerando que elas provavelmente irão se mover na direção oposta quando ocorre uma maior volatilidade do mercado".

Neste último aspecto da sua estratégia, ele estava enfatizando que as posições tivessem pouca correlação entre elas e com o mercado em geral. Além disso, Keynes fazia seus investimentos na contramão do consenso do mercado (efeito manada), conforme carta para Sir J. Ridley (03/1944): "Meu princípio central de investimento é ser contrário à opinião geral, baseado no fato, se todos concordam sobre seus méritos, o investimento é inevitavelmente muito caro e, portanto pouco atrativo."

É irônico que uma das frases mais citadas de Keynes - "No longo prazo, todos estaremos mortos" -, utilizada pelos mais diversos agentes econômicos para justificar o foco no curto prazo das decisões de investimentos, não faça parte da estratégia. Ele tirava partido disso fazendo uma arbitragem de horizonte temporal em cima da manada que enfatiza o curto prazo. Ressalte-se que isso foi depois de ele ter tido perdas substanciais com especulações em commodities e câmbio/moedas. Adicionalmente, ele adotou uma política de "safety first", isto é segurança em primeiro lugar, que ele considera a melhor resposta ante as incertezas inerentes dos mercados. Isto significa comprar ações que tenham um bom diferencial entre preço e valor.

Keynes, no memorando ao King's College citado acima, enfatiza que o investidor não deve se perturbar com as cotações diárias das ações, sobretudo não perder o senso das proporções e que as quedas devem ser encaradas com equanimidade e paciência.

Fonte: Valor Econômico
Autor: Luiz Codorniz

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