Um dos assuntos mais fascinantes em economia e finanças diz respeito à avaliação de ativos. No presente artigo, estou tratando por ativo uma empresa qualquer. Avaliar uma empresa pode ser visto como a busca pelo preço justo do valor do papel (ação) em função dos fundamentos da empresa. O que se buscará nessa série de artigos é discutir os aspectos mais relevantes, com um enfoque bastante crítico, mostrando as armadilhas e os atalhos para se avaliar uma empresa.
No transcorrer da saga sobre avaliação, vamos discutir temas como estratégia e valor, estimação da taxa livre de risco e do prêmio de risco, estimativa do custo de capital, estimação de fluxos de caixa, modelos de fluxo de caixa descontado (de dividendos, do acionista e da empresa), avaliação por múltiplos, opções reais, avaliação de ativos intangíveis, comentários sobre fusões e aquisições, além de uma avaliação de ações pouco básica: de onde surgem os fluxos de caixa?
O tema a ser abordado no primeiro artigo será a relação entre os fluxos de caixa e o valor de uma empresa ou ação. Todos nós sabemos que o valor de uma empresa vem da sua capacidade de geração de caixa. Apesar disso, para entender melhor uma questão de caixa, temos que pensar na empresa, nos seus drivers ou geradores de valor.
Mas isso, por si só, não resolve o problema, pois para entendermos o valor de uma empresa precisamos analisar o seu ambiente competitivo, a sua inserção no mercado, bem como a sua estratégia. Podemos, portanto, inferir que o valor da empresa, ou a sua geração de caixa, depende, e muito, de uma boa estratégia.
A resposta à questão inicial está melhor. Já podemos ligar valor à estratégia, mas ainda falta um pouco mais. Como as empresas traçam as suas estratégias? Para a definição da estratégia a ser adotada é necessário a análise do macro ambiente, nos seus vários aspectos: econômico, político, regulatório, legal, tecnológico, entre outros. Assim, na definição da sua estratégia, a empresa não pode esquecer de que a estratégia deve ser definida levando-se em conta o ambiente em que está inserida.
Com o que foi visto nos parágrafos anteriores, podemos inferir que o valor da empresa vem do seu bom posicionamento mercadológico, da sua correta identificação das ameaças e oportunidades existentes no mercado. Isso parece óbvio - e realmente é - e talvez em função disso mesmo seja quase sempre negligenciado. Avaliar uma empresa sem levar em consideração a sua inserção no ambiente, a sua estratégia e o impacto disso tudo nos seus drivers pode ser uma experiência simples e desastrosa.
Para o início do processo de valoração, a análise do ambiente competitivo e macro são fundamentais. Existem diversos modelos teóricos que nos ajudam nessa missão. Grande parte desses modelos está dentro de uma corrente que se conhece por organização industrial (IO). Na IO temos os modelos ECP (Estrutura-Conduta-Performance) e o modelo das cinco forças de Porter, por exemplo. Ambos os modelos relacionam o desempenho de uma empresa e, portanto a sua geração de caixa, muito mais a aspectos relacionados ao setor do que a fatores internos à empresa.
Outra abordagem é dada pelos teóricos da Visão Baseada em Recursos (RBV) para os quais o desempenho acima da média de uma empresa deriva-se basicamente da correta utilização de recursos inerentes à empresa que são raros e valiosos, dentre outros aspectos, e que se traduzem, do ponto de vista financeiro, em alguma vantagem competitiva de modo a garantir uma maior geração de caixa e, portanto, maior valor à empresa.
A preocupação do analista em entender a empresa, o seu modelo de negócios, os recursos que de alguma forma contribuem para a geração de valor é de fundamental importância para uma boa análise do tipo fundamentalista. É daí que se deriva uma projeção consistente de fluxo de caixa e, por conseqüência, uma valoração mais apurada do negócio. Parece óbvio não? Então vamos sempre nos preocupar com os aspectos aqui mencionados, pois do contrário não estaremos realmente fazendo uma avaliação adequada das empresas (ações).
Lembre-se de que o valor, os fluxos de caixa e os resultados de uma operação são conseqüência de uma boa valoração, que pode ser traduzida pelo correto entendimento da empresa, do seu negócio, do seu setor, da sua inserção no mercado, dos seus recursos, bem como da inter-relação de tudo isso com o macro ambiente em que se encontra. Daí deriva o valor... do contrário é chute!
Fonte: Valor Econômico
Autor: Domingos R. Pandeló Junior