sexta-feira, 07 de novembro de 2008 Investimento em valor

Lições contemporâneas na "Bíblia" dos investimentos

1567800356 No mês passado, em Nova York, houve o lançamento da sexta edição de "Security Analysis", o curso de investimentos escrito por Benjamin Graham e David Dodd, originalmente publicado em 1934. Amplamente reconhecido como uma das mais importantes referências da análise fundamentalista, o livro é a primeira manifestação formal da abordagem que ficou conhecida como "value investing".

Security Analysis impressiona pela riqueza dos sólidos ensinamentos, que resistiram ao passar do século 20. Graham e Dodd realmente cumpriram o objetivo de oferecer princípios e técnicas de investimento que pudessem ser seguidos sem medo por qualquer pessoa inteligente que os estudasse. De fato, foram além, uma vez que o trabalho tornou-se referência para várias gerações de investidores bem-sucedidos (como Walter Schloss, Warren Buffett, Michael Price e Seth Klarman).

A primeira edição foi redigida durante a Grande Depressão que seguiu o crash de 1929. Certamente um dos piores períodos para investidores - o Dow Jones caiu 87% entre 1929 e 1932 -, a crise foi em parte responsável pelo conservadorismo dos autores, que preferiam evitar riscos a buscar ganhos rápidos. Eles afirmavam que o investidor deve sempre exigir uma margem de segurança, selecionar cuidadosamente as empresas e se proteger, por meio da ampla diversificação. Além de discorrerem com excelência sobre as distinções entre investimento e especulação, Graham e Dodd desenvolveram o critério de investimento em "net nets" - empresas com valor de mercado inferior à diferença entre seu ativo circulante e todo o seu passivo (um tipo de barganha comum na década de 30).

A segunda edição (1940), revisada e ampliada, era tida por muitos profissionais como a melhor e foi escolhida como texto-base para a atual. Posterior ao difícil mercado de 1937 e 1938, quando o Dow caiu 50%, o texto reforça a visão conservadora: ações ordinárias são normalmente consideradas especulativas enquanto títulos de dívida de baixo risco, operações de arbitragem e determinadas ações preferenciais são investimentos. Nela os autores aludem à figura do "private investor", a pessoa que compra participações significativas ou empresas inteiras e que, de maneira implícita, está presente nas negociações em bolsa.

Em resumo, "Security Analysis" provê a base para que, a partir dos demonstrativos financeiros, o investidor estime o valor dos papéis das empresas e tenha maior probabilidade de lucros. Mas, apesar da atualidade dos princípios nele formulados, o livro foi escrito em um período muito menos complexo - ainda não existiam, por exemplo, os tipos de derivativos ("armas financeiras de destruição em massa") que hoje estão devastando Wall Street e mercados mundo afora. Dividendos, lucros divulgados e valores de ativos já eram importantes na análise, mas o fluxo de caixa livre, hoje no foco de muitos investidores, ainda não era examinado. Investidores institucionais, antigamente coadjuvantes, agora dominam as bolsas. Ademais, exemplos desatualizados e a ênfase em atividades que já tiveram mais importância afastavam "Security Analysis" da realidade atual.

Felizmente, o novo lançamento resgata o trabalho e o coloca no contexto presente: alguns capítulos foram substituídos por escritos de eminentes "value investors" contemporâneos (James Grant, Bruce Greenwald e Bruce Berkowitz, dentre outros) e um breve texto de Tom Russo, sobre a aplicação do "value investing" em mercados estrangeiros, foi adicionado. Seth Klarman, que coordenou todo o projeto e acrescentou um ensaio introdutório condizente em qualidade com a obra original, concluiu:

"O verdadeiro segredo em investimentos é que não há segredo em investimentos. Todos os aspectos importantes do 'value investing' por muitas vezes estiveram acessíveis ao público, começando em 1934 com a primeira edição de 'Security Analysis'. E, porque tanta gente fracassa em seguir essa abordagem atemporal e quase infalível, aqueles que a adotam continuam a ser bem-sucedidos. O lado fraco do ser humano, que em massa busca riqueza instantânea e ganho sem esforço, parece que estará conosco para sempre. Enquanto as pessoas sucumbirem a esse aspecto de sua natureza, o 'value Investing' permanecerá, como tem sido por 75 anos, uma abordagem sólida e de baixo risco para o investimento de longo prazo bem-sucedido."

Fonte: Valor Econômico
Autor: Rui Tabakov Rebouças

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