"Seja audacioso quando os outros estiverem com medo e tenha medo quando os outros forem audaciosos" (Warren Buffett).
A crise financeira segue fazendo vítimas, e claramente entrou numa fase de pânico. As ações no mundo todo, em queda livre, já perderam quase a metade de seu valor desde o pico recente. O preço das principais commodities despencou, a volatilidade disparou, os saques de fundos não param de crescer, e muitos começam a mencionar a grande depressão de 1929 como paralelo ao momento atual. Normalmente, esses momentos de desespero costumam representar bons pontos de entrada nas bolsas.
Não há garantias de que as coisas vão melhorar e de que já vimos o pior. Fazer previsões sobre o futuro financeiro é uma tarefa ingrata e humilde diante dos mercados, com milhares de investidores profissionais atuando. A arrogância é uma das grandes inimigas do sucesso. Dito isso, a hora de ousar um pouco mais é justamente quando quase todos estão apavorados.
Como disse o investidor Mark Mobius, na linha de Buffett, compre quando os outros estão vendendo desesperadamente e venda quando os outros estão comprando gananciosamente. Ir contra a maioria, no entanto, nunca é fácil. Exige estômago para agüentar a pressão, e sempre foi mais fácil errar em conjunto do que sozinho. Mas são as apostas contrárias ao consenso que permitem os maiores retornos. E como disse Max Gunther, autor de "Os Axiomas de Zurique", "se o seu principal objetivo na vida é fugir das preocupações, então você nunca deixará de ser pobre." Quem tem muito medo de perder, dificilmente irá ganhar.
O autor de "The Art of Contrary Thinking", Humphrey Neill, lembra que as massas ficam mais entusiasmadas e otimistas quando deveriam ser mais cuidadosas e prudentes, e ficam mais medrosas quando deveriam estar corajosas. O especulador Michael Steinhardt, autor de "No Bull", lembra que quando o mundo quer comprar apenas títulos do Tesouro americano, então podemos quase fechar os olhos e comprar ações. Vários foram os casos de sucesso no passado, de investidores com coragem para desafiar as previsões extremistas do consenso. Claro, existem muitos casos em que aqueles que desafiaram as visões alarmistas perderam feio. A principal razão costuma ser um erro de "timing", com apostas cedo demais. Afinal, como dizia John M. Keynes, "os mercados podem permanecer irracionais por mais tempo do que você pode permanecer solvente."
Por isso é fundamental evitar a alavancagem ou a iliquidez, já que uma venda forçada pode tirar você do jogo antes do tempo ideal. Tentar acertar o fundo do poço, sem margem para perdas maiores antes dos ganhos esperados, é uma das formas mais caras de jogatina. Os cassinos são mais baratos. Como alertou Bernard Baruch em seu "My Own Story", não tente comprar na mínima e vender na máxima, pois isso não pode ser feito, à exceção dos mentirosos. O uso de alavancagem por meio de derivativos pode ser fatal também. Warren Buffett sempre alertou para este risco, afirmando que eles são como armas financeiras de destruição em massa. Como vemos agora nessa crise de "credit crunch", ele estava certo uma vez mais. Quem abusava do poder de alavancagem sofreu uma dura lição.
Por fim, podemos sempre esperar o melhor, mas devemos estar preparados para o pior. O futuro é incerto, e ninguém sabe o que vai acontecer. Se os custos do fracasso forem altos demais, comprometendo a saúde financeira inteira do investidor, não há recompensa que justifique uma aposta. Brincar de roleta russa não é algo muito racional. Arriscar parte do patrimônio, especialmente quando há preços convidativos e o fim do mundo parece precificado, pode fazer sentido.
O ideal é preservar o capital, e por isso, não é desejável colocar tudo a perder. Quem deseja remar contra a maré apenas para bancar o "macho" deveria procurar ajuda no divã, não nos mercados. Mas quem assume as limitações em relação ao conhecimento do futuro, e ainda assim resolve fazer uma aposta responsável nas bolsas, focando um horizonte de mais longo prazo, pode obter um excelente retorno. Essa postura não combina com o sonho de rápido enriquecimento, típico das bolhas financeiras. Mas pode ser adequado quando as bolhas estouram, para quem tem tranqüilidade de remar contra a maré, sempre atento para o risco de que a maré pode ser, na verdade, um tsunami.
Fonte: Valor Econômico
Autor: Rodrigo Constantino