Warren Edward Buffett nasceu a 30/8/1930 em Omaha, Nebraska. Seu pai era corretor e congressista. Desde cedo, Warren tinha uma queda por números; aos oito anos começou a ler os livros do pai sobre o mercado de ações. Aos 13 anos trabalhava como entregador de dois jornais. Com suas economias comprou máquinas de fliperama usadas; chegou a sete máquinas, com um faturamento de US$ 50 semanais. Comprou um Rolls-Royce com um amigo por US$ 350, e passou a alugá-lo por US$ 35/dia. Enfim, sua carreira era promissora: aos 16 anos, Buffett já possuía US$ 6.000.
Terminado o curso de Economia em New York, retornou a Omaha, indo trabalhar na corretora do pai. Continuou em contato com seu ex-professor, Ben Graham, indo trabalhar em 1954 na Graham-Newman, que se dissolveu dois anos depois. Com o apoio da família e dos amigos, aos 25 anos, Buffett começou uma sociedade limitada de investimentos, com sete pessoas, que lhe confiaram US$ 105 mil. Pelos próximos 13 anos Buffett obtém retornos de 29,5% ao ano, sendo a sua remuneração de 25% sobre o que superava 6% ao ano. Buffett não somente comprou posições minoritárias, como também majoritárias, em várias companhias. Em 1961, comprou a Dempster Mill Manufacturing Co., uma fábrica de equipamentos agrícolas. Em 1964, adquire a Berkshire Hathaway, uma companhia têxtil em dificuldades e com valor contábil de US$ 22 milhões.
No ano de 1967, ingressa na área de seguros, adquirindo a National Indemnity. Dois anos depois, adquire o Illinois National Bank – que é revendido nos anos 80, em função da Bank Holding Company Act. Também nesse ano, é liquidada a Buffett Partnership, Ltd., cujos investidores passam à condição de bilhões da Capital Cities /ABC; US$ 2,4 bilhões da Geico; US$ 2 bilhões da American Express; US$ 1,5 bilhões do Wells Fargo. Essa carteira havia sido adquirida por um total de US$ 5,7 bilhões. Ao início de 1996, passa a deter 100% da Geico. Seu investimento na Coca-Cola supera os US$ 10,5 bilhões de valor de mercado. Os principais investimentos da carteira de Buffett em 1997 eram: Coca-Cola: US$ 13,3 bilhões; American Express US$ 4,4 bilhões; Gillette US$ 4,8 bilhões; Freddie Mac US$ 2,7 bilhões; Wells Fargo US$ 2,2 bilhões; Travellers US$ 1,3 bilhões.
Ao final dos anos 90, Buffett detinha 38% da Berkshire Hathaway – avaliados em cerca de US$ 36 bilhões – fortuna apenas superada pela de Bill Gates. Também tinha a satisfação de acompanhar a riqueza dos que nele confiaram: por exemplo, nos anos 90, Donald e Mildred Othmer deixaram US$ 340 milhões para diversas instituições filantrópicas do Brooklyn – de uma fortuna que totalizava US$ 750 milhões, e que se iniciara com US$ 25.000 que cada um investira nos anos 60 com Buffett.
O Estilo de Buffett
Em 1956, Buffet começou a administrar dinheiro de terceiros formando uma série de sociedades que, no final, se juntaram numa única: a Buffet Partnership. Ele continuou utilizando a abordagem pura de Benjamin Graham, como fazia desde 1950. Mas Buffett não era Graham. Mesmo sendo um investidor de sucesso, Graham era, antes de mais nada, um estudioso, um teórico. Mas Buffet (apesar das aulas na Universidade em Omaha e de ser apaixonado pelo magistério) é, essencialmente, um homem de negócios. Embora Graham tenha escrito em 1934, em Security Analysis, que:
É quase inacreditável que Wall Street nunca pergunte: “Por quanto está sendo vendido o negócio?” E, no entanto, essa deveria ser a primeira pergunta na compra de uma ação.
Ele não enxergava uma empresa como um negócio; e não estava particularmente interessado na administração ou nos produtos da companhia. Os únicos dados que lhe interessavam eram os números.
Mas a pergunta que Graham fez em 1934 “Por quanto está sendo vendido o negócio?” iria se tornar a base do próprio estilo pessoal de investimento de Buffet.
O primeiro indicativo de que estava se diferenciando do estilo de Graham foi quando investiu um quinto de seus recursos societários na aquisição de 70% das ações controladoras da Dempster Mill Manufacturing Co., uma companhia que fabricava moinhos e implementos agrícolas. Mas esse negócio era estático e revitalizá-lo simplesmente não era “o prato preferido” de Buffet. Não demorou muito para que ele colocasse a empresa à venda.
Em 1963, Buffet começou a acumular sua primeira compra de ações que Graham não compraria: as da American Express. Mais uma vez, ele comprou uma grande quantidade, aplicando 25% de seus recursos societários na compra de ações dessa companhia.
Na época, como ainda hoje, Buffet aderiu ao princípio fundamental de Graham de que só se compram valores a um preço que proporcione significativa margem de segurança. Buffet nunca esqueceu os dois tópicos da estratégia de Graham que considera as mais importantes: “margem de segurança” e “o investidor e as flutuações de mercado”. Na American Express, Buffet viu o valor e também a “margem de segurança”. Mas houve uma mudança no que ele estava “vendo” e no modo como calculava o valor.
Uma subsidiária da American Express operava um depósito que estocava tanques de óleo vegetal e, em troca, emitia recibos para os clientes. Infelizmente, uma delas, a Allied Crude Vegetable Oil and Refining, era dirigida por um vigarista. Com uma classificação de crédito igual a zero, a Allied descobriu que poderia transformar óleo vegetal em recibos da American Express, que eram negociáveis em bancos.
Quando a Allied foi à falência, seus credores bateram à porta da American Express exigindo o óleo vegetal ou o seu dinheiro de volta. Somente então foi descoberta a fraude: a maioria dos tanques armazenados na Allied continha apenas água do mar, com um pouco de aroma de óleo vegetal. A American Express estava enfrentando um prejuízo de US$ 60 milhões; “mais do tínhamos”, conforme palavras do CEO, Howard Clark.
De US$ 60 em novembro de 1963, antes do “Escândalo do Óleo Vegetal”, o preço da ação da American Express caiu para US$ 35 no início de 1964. Mas Buffet viu o problema como um evento único, que não afetaria o principal negócio da American Express: o cartão de crédito American Express e os cheques de viagem.
Mas como avaliar a empresa? Para Graham, a empresa (mesmo com a ação valendo US$ 35) era proibitiva. Ainda é muito mais caro do que o valor de seus ativos tangíveis, ou seja, seu valor contábil. O que a American Express possuía era intangível: sua base de clientes, o car~tao de crédito líder mundial (isso antes da VISA e do Mastercard) e centenas de milhões de dólares “voando” em cheques de viagem emitidos mas ainda não sacados.
Buffet viu um negócio promissor com uma franquia valiosa, inestimável, gerando ganhos estáveis (ganhos que poderiam ser obtidos por uma pechincha). A pergunta de Buffet passou a ser: “O negócio de franquias da American Express foi afetado?” Esse não é o tipo de pergunta cuja resposta esteja no relatório anual da empresa.
Buffet passou a ser um detetive. Ele passou uma tarde atrás da caixa registradora de sua churrascaria preferida em Omaha e descobriu que as pessoas ainda estavam utilizando o cartão American Express, o negócio continuava normal. Descobriu com os bancos, agentes de viagem, supermercados e farmácias que as vendas de cheques de viagem e de ordem de pagamento não haviam caído. Telefonou para os concorrentes e descobriu que o cartão American Express continuava tão forte quanto antes. Então, concluiu que a empresa sobreviveria. Tão logo chegou essa conclusão, agarrou as ações da American Express com as duas mãos.
A Influência de Fisher
Enquanto Benjamin Graham desenvolvia o que ficou conhecido em Nova York como “value investing”, outro investidor famoso atualmente, Philip Fisher, estava criando o que mais tarde passou a ser chamado de “growth investing” (um estilo de investimento que prioriza empresas com forte crescimento nos lucros).
Enquanto o método de avaliação de Graham era quantitativo, o de Fisher era qualitativo. Graham confiava exclusivamente nos números das demonstrações financeiras das empresas. Fisher, ao contrário, achava que “ler os relatórios financeiros de uma empresa não é o bastante para justificar um investimento”. De acordo com Fisher:
O que de fato importa para determinarmos se a ação está barata ou supervalorizada não é o índice de ganhos atual, mas sim o índice de lucro dos próximos anos...[Este é] o segredo para evitar prejuízos e obter lucros magníficos.
Buffet declarou que sua abordagem de investimento seria 85% Graham e 15% Fisher, o que deixa claro como as idéias de Fisher também foram muito importantes para determinar o estilo de Buffet.
A exemplo de Graham, Fisher procurava ações baratas e também “detestava perder dinheiro”. Mas determinar os lucros de uma empresa “nos próximos anos” é algo bastante diferente de decifrar o valor contábil ou de liquidação com base em um relatório anual. Como era de se esperar, Fisher e Graham tinham critérios de investimento bastante diferentes.
Fisher poderia estimar os lucros futuros de uma empresa com confiança apenas se entendesse como ela funcionava. Portanto, sua primeira regra era sempre permanecer dentro de seu círculo de competência. Como Buffet faz hoje em dia, ele só investia nos setores que conhecia bem. Dentro desse círculo de competência, ele procurava empresas que preenchessem suas “Quatro Dimensões” com os seguintes atributos:
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Uma decisiva vantagem sobre a concorrência por ser o produto de mais baixo custo do setor e/ou ter uma capacidade financeira, de produção, de pesquisa e de marketing superiores.
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Uma administração excepcional, o que ele considerava fundamental para a obtenção de resultados excepcionais.
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As características econômicas do negócio deveriam pelo menos assegurar que os lucros atuais fossem acima da média do setor e que o retorno sobre o ativo, a margem de lucro e o crescimento das vendas fossem contínuos por um longo período.
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O preço tinha de se atraente.
Como Fisher conseguia saber de tudo isso? Conversando com as pessoas. Naturalmente, muita coisa pode ser encontrada nos relatórios anuais e em outras informações disponíveis de uma empresa. Principalmente dados que revelam quais organizações devem ser evitadas. Por exemplo, você sempre fica sabendo sobre a honestidade, ou a sua falta, dos administradores apenas com a leitura dos relatórios anuais anteriores.
Mas, para Fisher, não havia substitutos para a informação de primeira mão. Quando possível, é claro, ele falava com a empresa e conheceria seus executivos. Mas, por mais que os dirigentes da empresa sejam honestos e solícitos, a visão deles é, via de regra, incompleta.
Uma das fontes preferidas de Fisher era o que ele chamava de “rumores”: o que as pessoas falavam sobre a empresa e seus produtos. Ele conversava com pessoas que comercializavam com a empresa – de clientes, consumidores e fornecedores até antigos empregados e, principalmente, concorrentes. Um executivo pode relutar em contar muitos detalhes sobre a própria empresa, mas ficará feliz em contar tudo o que sabe sobre a concorrência.
Em sua primeira incursão nesse tipo de análise – em 1928, quando trabalhava em São Francisco, no departamento de investimento de um banco, Fisher conversou com os compradores no departamento de rádios de várias lojas da cidade.
Pedi a opinião deles sobre os três maiores concorrentes do setor. Recebi com surpresa, opiniões semelhantes de cada um deles... A Philco – que, infelizmente para mim, era uma empresa de capital fechado, ou seja, não representava uma oportunidade no mercado de ações – desenvolveu modelos que tinham um apelo especial de mercado. Conseqüentemente, estavam ampliando sua participação de mercado com um belo lucro, porque eram fabricantes altamente eficientes. A RCA estava apenas mantendo sua fatia de mercado, enquanto outra empresa, que era a “bola da vez” no mercado de ações, estava caindo drasticamente e dava sinais de estar passando por dificuldades... Em nenhuma publicação de negócios de Wall Street que falava de dicas “quentes” do setor de rádios, encontrei uma única palavra sequer sobre os problemas que obviamente estavam acontecendo com este favorito da especulação.
Fisher observou as ações, que havia apontado como problemáticas, afundarem enquanto o mercado de ações subia a novas alturas.
Foi minha primeira lição naquilo que se tornaria, mais tarde, parte de minha filosofia básica de investimentos: ler os relatórios financeiros de uma empresa nunca é o suficiente para justificar um investimento. Um dos principais passos para uma aplicação prudente é descobrir sobre os negócios da empresa por intermédio daqueles que têm alguma familiaridade com ela.
Ao descobrir uma empresa notável, que atendesse a todos os seus critérios, Fisher investia nela grande porcentagem de seu portfólio. Fisher preferia possuir apenas algumas empresas notáveis e não um grande número de negócios medíocres. Raramente possuía mais do que dez cotas de ações e, geralmente, três ou quatro empresas respondiam por três quartos de seu patrimônio líquido.
Uma vez compradas as ações de uma empresa, ele as mantinha por anos, às vezes por décadas. Fisher descrevia o período médio de retenção das ações como “vinte anos, mas cheguei a manter uma participação por 53 anos”. Segundo Fisher, quando era a melhor hora para vender? Se a compra da ação ordinária foi bem-feita, a hora certa de vendê-la é quase nunca. Ele disse que existiam apenas três ocasiões para se vender uma ação. A primeira é quando você percebe que cometeu um erro e a empresa não atendeu a todos os critérios: por exemplo, quando uma administração menos hábil assume o controle; ou quando a empresa se torna tão grande que não pode crescer mais rápido do que o setor como um todo. E a terceira, quando você se depara com uma oportunidade fantástica e a única maneira de adquiri-la é vendendo algo antes.
Autor: Tiago Machado
Texto baseado nos livros "O investidor inteligente" de Benjamin Graham, "Investimentos: os Segredos de George Soros e Warren Buffett" de Mark Tier e do artigo "Investir ou Apostar: Warren Buffett vs George Soros" de Roberto Minadeo.