sexta-feira, 03 de outubro de 2008 Economia

Quem se planeja financeiramente deve estar tranqüilo

9181000146 O mercado financeiro vem registrando intensa volatilidade desde o início do segundo semestre de 2007, quando começaram a ser sentidos os efeitos provenientes de atrasos de pagamentos de hipotecas por consumidores americanos. Desde então, viu-se um "efeito dominó", contagiando diversos instrumentos financeiros que possuíam algum lastro ou que tinham como garantia esse fluxo de pagamentos futuros. Esse fluxo acabou não se concretizando em muitos casos, levando bancos, seguradoras e agências hipotecárias a terem sérios problemas de liquidez.

Apesar de a economia brasileira não ter relação alguma, em princípio, com esse fato, vários investidores estrangeiros desfizeram posições em ações. Com o aumento da aversão ao risco, o que se viu foram quedas sucessivas do Ibovespa, assim como de outras empresas negociadas na bolsa paulista, mas não listadas em seu principal índice.

Certamente muitos investidores brasileiros devem estar hoje preocupados com as fortes quedas e a instabilidade que já fez aniversário. Afinal, após anos de ganhos fartos, nunca se está preparado para uma reviravolta. Porém, provavelmente aqueles que se planejam financeiramente de forma correta podem atravessar essa turbulência sem perder o sono. Um planejamento bem feito implica, entre outros fatores relacionados à vida financeira, o aconselhamento de alocação de investimentos a partir das respostas a três simples perguntas: Quais os objetivos? Por quanto tempo o dinheiro poderá ficar investido? Qual o apetite a risco do investidor?

Se o investidor tiver respondido que precisaria utilizar o dinheiro em menos de um ano, pois pretendia, por exemplo, se casar após esse período, certamente foi aconselhado por um bom planejador a manter os recursos em um CDB de banco de primeira linha, em papéis do Tesouro Direto ou em um fundo DI ou de renda fixa. Ou seja: esse investidor não está preocupado com a queda da bolsa.

Caso o investidor tivesse afirmado que iria utilizar o dinheiro em um período mais longínquo, talvez quando se aposentar, em 20 ou 30 anos, mas também tivesse demonstrado alguma aversão ao risco, ele seria bem assessorado por um planejador financeiro a alocar uma pequena parcela da carteira de investimentos em ações. Assim, mesmo com a queda do mercado, esse investidor também não estaria preocupado, pois esse desempenho ruim provavelmente será compensado pelas aplicações conservadoras, a maior parte de sua carteira.

Já se o investidor tiver dito que pretendia utilizar seus recursos no longo prazo, pelo menos 10 anos a contar da data de consulta com seu planejador financeiro, e que não se importaria em demasia com riscos, um bom consultor financeiro pessoal iria aconselhá-lo a aplicar parcela mais significativa em ações. Se tivesse sido esse o caso, provavelmente o investidor pode estar um pouco preocupado. Contudo, cabe ao consultor financeiro explicar previamente ao investidor a diferença entre turbulências do mercado e o desempenho das companhias cujas ações este investidor possui.

Nesse sentido, o investidor que adquire ações espera que o papel se valorize e renda bons dividendos. Para que isto ocorra, a empresa deverá utilizar o capital desses acionistas para empreender projetos que proporcionem bons retornos, o que, conseqüentemente, deverá elevar o valor das ações e dos dividendos pagos. Assim, muito mais do que focar na magnitude dos lucros, um bom administrador estará preocupado com o quanto esses lucros representam do capital investido dos acionistas, qual o retorno que tais lucros estão proporcionando aos detentores de ações dessa empresa. Ou seja: nada a ver com a queda atual dos mercados de ações. Em outras palavras, pouco importam as oscilações pontuais. Como o investidor foi orientado a adquirir papéis de companhias que privilegiam o retorno ao acionista e não precisará dos recursos investidos neste momento, ele também pode dormir tranqüilo.

Dessa forma, independente de quais sejam os desdobramentos dessa crise e de quanto tempo ela permanecer trazendo apreensão aos investidores e volatilidade ao mercado, o aconselhamento de um consultor financeiro pessoal pode ser importante tanto para se buscar uma boa alocação de investimentos, baseada nos objetivos e nas restrições de cada investidor, como para evitar que sejam tomadas decisões precipitadas nesse momento de maiores instabilidades, o que poderia colocar em risco os ganhos passados.

Fonte: Valor Econômico
Autor: Caio Fragata Torralvo

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