segunda-feira, 29 de setembro de 2008 Economia

Como no cinema, prendam os suspeitos de sempre

Royalty-Free Stock Imagery by Rubberball O mercado precisa de volatilidade para funcionar. Sem volatilidade, não têm negócio. Partindo-se do princípio econômico de que os agentes são racionais e agem segundos os princípios de maximização de riqueza, cabe aqui a seguinte pergunta: "Como é que acontecem os negócios?" Justifico a pergunta.

Se todos os agentes são racionais, se o mercado é razoavelmente eficiente, ou seja, as informações básicas estão divulgadas e todos têm acesso a elas, como é que existem operações? Afinal, deve ser bem difícil numa operação as duas partes saírem ganhando. A maior parte dos mercados, pelo menos em termos monetários, ou financeiros, são do tipo "zero sum game" (jogo de soma zero).

Ora, se as transações ocorrem o tempo todo, alguma coisa talvez não esteja correta no meu raciocínio até aqui, pelo menos parcialmente. Vamos explorar um pouco a questão.

Talvez os agentes econômicos não sejam tão racionais como se pressupõem. Se isso for parcialmente verdadeiro, alguns ajustes devem ser efetuados nos modelos de análise de decisão. Sou tentado a crer, até pelas minhas atitudes enquanto investidor e consumidor, que não trabalhamos com todas aquelas curvas, equações e gráficos que a microeconomia e as finanças sugerem. Nesse ponto, talvez deixemos um pouco a desejar.

As finanças comportamentais tentam preencher algumas lacunas importantes no que se refere ao tema. Na verdade, a questão básica é levantar que nem sempre o comportamento do ser humano é o mais adequado aos seus investimentos. O sentimento bastante forte de aversão à perda, de um lado, e a facilidade em reconhecer ganhos, do outro lado, tendem a fazer com que percamos mais do que deveríamos e ganhemos menos do que poderíamos.

Uma segunda situação bastante plausível para explicar o que acontece é que o grau de aversão ao risco varia de investidor para investidor. Essa parece ser uma questão de fácil aceitação. É fácil inferir que as pessoas lidam de forma diferente com a relação risco x retorno. Nem todos parecem estar posicionados na mesma medida. Ainda bem, pois assim fica mais fácil haver negócios.

Uma derivação desta questão diz respeito à possibilidade de que o grau de aversão ao risco de um agente econômico mude ao longo do tempo em função de diversos fatores como, por exemplo, a riqueza. Parece razoável supor que um investidor que ganhou muito dinheiro ao longo de um ano seja mais conservador em suas posições ao longo do ano seguinte.

Analogia semelhante pode ser feita, para exemplificar, com uma empresa que está com um retorno abaixo da média do seu setor. Ora, neste caso, ela tende a tomar mais riscos para chegar à média. Provavelmente, a sua postura seria diferente se ela estivesse com uma rentabilidade bem superior à média. Você pode pensar exatamente o contrário do que acabei de dizer... E alguns investidores realmente o fazem, pois lidam de forma diferente com o efeito aumento de riqueza.

Uma terceira situação a ser explorada é que mesmo que o mercado seja eficiente, que as informações estejam disponíveis para todos os agentes econômicos (investidores), sem custos mais elevados, ainda assim, a capacidade de juntar tais informações, de articular, de interpretar varia de investidor para investidor, de analista para analista, o que pode explicar a existência de negócios no mercado.

Uma mesma informação pode ser interpretada de forma bastante diversa. Acho que aí é que está o fascínio do mercado. Não existe fórmula pronta. Um aumento das taxas básicas de juros, por exemplo, como a recente praticada pelo Copom pode ser visto como algo negativo para o país, em função do potencial impacto recessivo. Ou pode ser visto como algo positivo, pois mostra uma clara preocupação com a contenção da inflação e com a manutenção da estabilidade, o que deveria estimular os investimentos e não o contrário. Afinal, a taxa que deve guiar as decisões de investimentos é a de longo prazo, e não a de curto.

Um auxílio ou ação de bancos centrais para socorrer empresas em dificuldades pode ser percebido como um bom sinal, pois indica que os órgãos reguladores vão fazer um grande esforço no sentido de se evitar um colapso nos mercados. Mas ao mesmo tempo pode ser interpretado como um sinal de que os problemas são mais graves do que se imaginava.

Devemos, portanto, procurar interpretar as informações. Nada de ler, ouvir e aceitar. Vamos um pouco além. Voltando ao título do artigo, no filme Casablanca, o chefe de polícia, sempre que não sabia a quem procurar, ou não queria encontrar efetivamente o responsável, determinava aos seus homens que procurassem os suspeitos de sempre. Talvez essa busca por mais detalhes, por mais informações, por análises menos enviesadas nos proporcionem maiores ganhos no mercado, ou pelo menos um menor nível de perdas, Isso, num momento de turbulência, já é um grande negócio.

Fonte: Valor Econômico
Autor: Domingos R. Pandeló

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