Deu no "Financial Times" (21/09/07), mas você viu antes aqui (20/09/06), essa espécie de leitura psíquica de fenômenos econômicos. Lá, no Reino Unido, David Tuckett, psicanalista, e Richard Taffler, professor de finanças, batizaram sua contribuição para uma compreensão mais aprofundada sobre o mercado financeiro de finanças emocionais.
Você talvez já conheça alguns conceitos de finanças comportamentais e idéias da psicanálise que apresentei anteriormente. Pois é a partir do eixo da psicologia econômica (a "mãe" das finanças comportamentais) e psicanálise que tenho procurado analisar questões econômicas. Essa articulação não é muito freqüente, daí a grata surpresa ao me deparar com a proposta destes pesquisadores.
O que dizem eles? Partindo de um extenso estudo realizado com gestores e investidores - e da premissa (psicanalítica) de que emoções e fantasias inconscientes, constituídas por desejos, impulsos e motivações, dominam nossa vida mental -, os autores concluem que aspectos psíquicos seriam responsáveis, em grande parte, por bolhas e pânico no mercado financeiro.
Quais seriam esses fatores? O entusiasmo exagerado com fantasias de realização de desejos à medida que o mercado sobe, acompanhados de repressão de emoções negativas que, se não fossem dessa forma suprimidas, poderiam alertar os agentes sobre o alto risco de suas operações financeiras.
Por isso, eles defendem a inclusão de variáveis emocionais e inconscientes nos modelos econômicos. Embora haja profissionais racionais e inteligentes atuando no mercado, os investimentos mais atraentes implicam apostas sobre um futuro incerto e essa incerteza mobiliza muitos sentimentos.
Isso explicaria o fato de profissionais experientes serem apanhados, no calor dos acontecimentos, por comportamento de manada, particularmente quando se trata de investimentos cercados por uma aura de inovação e poderosas expectativas. A miragem é: aqueles que embarcam na novidade serão recompensados com altos ganhos e quem ficar de fora será punido com perdas. Isso atinge também reguladores e operadores. Assim, quase em uníssono, inicialmente tende-se a subestimar os riscos do investimento e, após o pânico e o estouro da bolha, a superestimá-los.
Os pesquisadores comparam essas oscilações nas relações dos investidores com suas aplicações, àquelas de amor e ódio. Porém, assim como se costuma sofrer com ansiedade e incerteza dado o futuro é imprevisível, também no mercado acionário há flutuações e deve-se estar preparado para atravessar bons e maus momentos com ações. De preferência, sem deixar que o pânico tome conta da mente e das atitudes.
Em outras palavras, pode-se adotar duas posições psíquicas distintas ante estas experiências. Os pesquisadores dão nome aos bois (o que evitei neste espaço, com receio do impacto quiçá desnecessário, mas com o precedente do FT, aqui vão eles): na posição esquizo-paranóide, a mente não tolera a ansiedade e procura livrar-se dela. Isso resulta em cisões radicais que mantêm, de um lado, as pessoas e situações amadas e idealizadas e, de outro, segregado e inconsciente, o que não é aceito, não casa com as expectativas e tem potencial de desagradar, não se podendo acessar esses conteúdos de modo deliberado e claro (eles podem voltar como lapsos, sonhos, repetições e outras manifestações). Já na posição depressiva, é possível ter consciência do amor e ódio e aprender a confiar e suportar a ansiedade.
Bolhas ilustrariam essa experiência. Investidores cortam a ansiedade, perdem a cautela e procuram justificar "racionalmente" os riscos crescentes a que se expõem, sem se dar conta do que se passa em sua mente. Assim, depois que a bolha estoura, podem sentir vergonha e paranóia, mas raramente culpa genuína. É algo parecido com a paixão, quando se tende a enxergar apenas as qualidades da pessoa amada - até o momento quando se trinca a idealização, a realidade volta a ocupar seu (inexorável) espaço e ao objeto da paixão é devolvida a capacidade de nos decepcionar. O encanto derrete, deixando o sujeito à mercê de sentimentos persecutórios e acusações, como se do outro fosse a culpa por sentir-se tão mal agora.
É este intrincado universo emocional - nossa realidade psíquica - que os autores propõem estar presente, e merecendo investigação, no mercado financeiro.
Fonte: Valor Econômico
Autora: Vera Rita de Mello Ferreira