sexta-feira, 12 de setembro de 2008 Finanças Comportamentais

O perigo quando o investidor se torna torcedor

1307402336 Fim do Campeonato Brasileiro de 2007. Lágrimas nos olhos do torcedor corinthiano. O Timão foi para a "segundona". Camisetas com legendas de apoio: "Eu nunca vou te abandonar".

Ano de 2002. Eleição, turbulência política, desconfiança geral e dólar nas alturas. Investidores em pânico procuram alternativas que acompanhem a disparada da moeda americana. Carlos acaba de tomar uma decisão em relação aos seus investimentos: resgata os recursos aplicados em fundos de renda fixa e os coloca em um fundo cambial, embora não tenha passivos em moeda estrangeira nem previsão de despesas futuras no exterior. Para ele, está na cara que o dólar vai continuar subindo.

Até julho de 2008, o fundo cambial de Carlos apresentava rentabilidade negativa acumulada de 60%, isto sem considerar o custo de oportunidade da renda fixa. E o Carlos continua firme... torcendo! Isso porque, embora ele não vista uma camisa com a legenda, ele nunca vai abandonar este fundo, pois tem absoluta certeza que o mercado vai virar e ele vai recuperar, com lucro, seu investimento.

Este é um dos tantos exemplos que nos levam a questionar a racionalidade do investidor. Por que não avaliamos devidamente todos os fatos disponíveis antes de tomar decisões em relação ao nosso dinheiro? Por que nos resulta tão difícil realizar prejuízos? Por que permanecemos reféns de uma decisão errada?

Pesquisas no campo da economia comportamental nos permitem inferir alguns padrões sobre o comportamento econômico dos indivíduos. Vamos citar apenas alguns desses padrões analisados por Richard Thaler em seu paper "Survey of Behavioral Finance".

Excesso de confiança: As pessoas superestimam sua habilidade de prever eventos de mercado. Acreditar que conseguiu antecipar algum evento no passado, leva o indivíduo a concluir que realmente tem um faro infalível, o famoso "feeling". Esta conclusão, ainda que errônea, é extremamente gratificante para as pessoas.

Ao aplicar no fundo cambial, Carlos não teve dúvidas. Afinal, ele já tinha previsto o fim da inflação com o Plano Real de 1994 e a desvalorização cambial de 1999. Pena que na época ele não investiu - nem sequer apostou uma cerveja com os amigos.

Otimismo e perseverança: O ser humano é otimista em relação às suas crenças, sejam elas quais forem. Isto é particularmente perigoso quando falamos em investimentos, pois leva o indivíduo a superestimar sua habilidade como investidor e subestimar os riscos envolvidos. Pior ainda, uma vez tomada a decisão errada, ela é mantida por tempo demais.

Reconhecer o erro é bem mais doloroso que perder dinheiro - traders do mundo inteiro que o digam! A ferramenta "stop-loss" (parar a perda) é um importante mecanismo de gerenciamento de risco que põe um freio no trader-torcedor em momentos de grande volatilidade. E o investidor-torcedor, como fica? Seis anos após o investimento inicial, Carlos ainda acredita que tomou a decisão certa. Não precisa de "stop-loss". É apenas uma questão de tempo...

Viés de confirmação: Conhece aquela expressão: "Não foi por falta de aviso"? Pois bem, a experiência nos mostra que tendemos a ignorar opiniões diferentes das próprias. Opiniões contrárias às nossas crenças são tratadas com ceticismo ou até distorcidas para que virem ao nosso favor.

Carlos é uma pessoa esclarecida, leitor de revistas e jornais de finanças. Ele tem acesso a informações suficientes e tempestivas sobre a tendência da taxa de câmbio no médio prazo. Ele simplesmente as desconsidera, entendendo que se trata de uma tendência passageira, provocada pela maciça propaganda oficial. Na roda de amigos, Carlos evita abordar este assunto. Para ele, religião, política e dólar não se discutem.

As considerações acima mostram o quanto somos vulneráveis na hora de tomar decisões. Todo cuidado é pouco na hora de investir. Para evitar situações como a de Carlos, tente definir, da melhor maneira possível, qual é seu grau de aversão ao risco. Questionários disponíveis na internet podem auxiliá-lo. Analise todas as informações disponíveis. Diversifique. Defina seu ponto de "stop-loss" e respeite-o. Tomar uma decisão de investimento errada faz parte, todos já passamos por isso. Aferrar-se a essa decisão achando que está certa e a grande armadilha.

Em tempo: coerente com a sua crença, o torcedor corinthiano nunca abandonou seu time. Ao que tudo indica, o Corinthians deu a volta por cima e deve voltar para a primeira divisão no ano que vem. Já o investimento de Carlos...

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