Ancoragem refere-se à tendência de focalizarmos a atenção sobre um número e usá-lo como referência para fazer uma estimativa. Se vamos comprar um carro, por exemplo, o vendedor nos apresenta a mais equipada versão do modelo que desejamos. Temos, assim, o contato inicial com o modelo mais caro, que acaba por ancorar nossa expectativa de valor. Ao nos mostrar uma versão mais simples e um pouco mais barata, temos a impressão de estar com uma barganha. Muitos fecham o negócio de maneira precipitada a um preço elevado, dado que a âncora foi estabelecida em um patamar artificialmente alto.
O fenômeno da ancoragem é observado mesmo quando não há relação entre o número referência e a estimativa que precisamos fazer. Quem demonstrou primeiro a dinâmica por trás da ancoragem foram Kahneman e Tversy (1970). Os pesquisadores pediram aos participantes de um estudo para girarem uma roleta numerada de 0 a 100. Em seguida, precisavam responder quantos países africanos eram membros da ONU. Na média, quem tirava números próximos a 10 na roleta estima que 25 países africanos estão na ONU, ao passo que quem tirava números próximos a 65 estima que 45 países africanos estão na ONU.
Desnecessário dizer que os números da roleta não guardam relação com o número de países na ONU. No entanto, as respostas dadas são fortemente influenciadas pelo número aleatório. A âncora, além de ter relevância por ser uma informação recente, serve de base de referência, mesmo quando estamos cientes da ausência de relação entre uma coisa e outra.
Logo, nossas estimativas não independem do contexto. Somos influenciados pelos preços expostos, sejam eles justos ou não. Formamos estimativas a partir de um valor inicial e, em seguida, fazemos ajustes, flutuando com pouca dispersão ao redor do valor inicial de referência. Interrompemos o ajuste quando um valor considerado como plausível no contexto da avaliação é alcançado.
O mercado financeiro está repleto de números que podem atuar como âncora. Estudos demonstram que o retorno de uma aplicação no período anterior influencia as estimativas de desempenho futuro, exercendo papel determinante sobre o fluxo de capitais para as modalidades de investimentos. O mesmo ocorre para projeções econômicas. Vemos isso quando o Banco Central divulga as projeções do mercado para a inflação. Invariavelmente, se no período corrente a inflação surpreendeu para cima, nas semanas seguintes vemos revisões para cima das estimativas. O mesmo ocorre quando a inflação surpreende para baixo. Aqui, a âncora é o índice de preço corrente, ao redor do qual as projeções flutuam de maneira defasada e adaptativa.
A ancoragem, como outros conceitos de finanças comportamentais, é mais um exemplo que usamos para abreviar o processo decisório. No caso da âncora, selecionamos uma estimativa inicial e, então, a ajustamos à medida que recebemos informações. Isso nos permite focalizar a atenção em uma pequena quantidade de dados. Em várias situações, essa dinâmica gera boas estimativas. Problemas surgem quando usamos âncoras irrelevantes, ou quando os ajustes feitos são insuficientes para nos aproximar da realidade.
Soma-se à ancoragem o que Konrad Lorenz chama de "imprinting", ou à tendência que temos de fazer julgamentos com base no que está disponível no ambiente e de nos apegarmos a tal decisão. "Imprinting" é o efeito duradouro que tal impressão grava em nossa capacidade de julgamento.
Por conta da ancoragem e do "imprinting", temos dificuldade de identificar a formação de uma bolha especulativa. Ao comprarmos um ativo que se encontra sobrevalorizado, tomamos esse patamar apreciado como referência de valor e o associamos a um preço justo, visível e praticado pelo mercado. A partir daí, fazemos ajustes de nossas expectativas com base em novas informações.
Seja qual for o ativo analisado (um imóvel, ação ou um automóvel), o investidor deve fazer um levantamento amplo do valor do ativo, resistindo à influência dos primeiros preços que tiver contato. Isso permite uma avaliação mais abrangente do espectro de valores. Uma âncora será inevitavelmente formada. Porém, o investidor terá sua âncora formada com base em uma coleta representativa do universo de flutuação esperado, reduzindo a chance de ficar preso a uma falsa âncora. O passo seguinte é analisar de forma objetiva a perspectiva futura para o ativo e definir retornos esperados em cenários diversos. Com base nesses limites, o investidor pode definir indicativos de compra e venda. Ater-se a tais patamares ajuda a evitar que a tendência de fazer ajustes à âncora leve o investidor ao erro de afundar junto com ela.
Fonte: Valor Econômico