O que se pretende aqui é discutir alguns aspectos importantes e básicos sobre os fundamentos que norteiam, ou deveriam nortear, as decisões dos agentes econômicos na sua tomada de decisão. No artigo, serão abordados temas como a racionalidade do investidor, a sua aversão ao risco, o horizonte de tempo considerado, bem como o seu nível de riqueza. O pano de fundo será como tais variáveis afetam a sua tomada de decisão.
O primeiro aspecto a ser discutido diz respeito à questão da racionalidade dos agentes econômicos. Um dos paradigmas da teoria econômica e financeira prediz que os investidores (agentes econômicos) agem de forma racional, buscando sempre maximizar a sua satisfação. Sob uma ótica mais técnica, o que está por trás do dilema das escolhas dos investidores tem a ver com as relações existentes entre as funções utilidade e as preferências com relação ao risco. A análise das funções utilidade propicia verificar o quanto de satisfação um agente econômico obtém com determinada decisão - não se pode esquecer que, na maior parte dos casos, existem múltiplas possibilidades e as decisões são excludentes. A análise do grau de aversão ao risco permite situar o agente econômico, no caso o nosso investidor, em pelo menos três categorias: o avesso ao risco, o neutro ao risco e o amante do risco. Do ponto de vista técnico, a análise deve ser conjunta, ou seja, função utilidade e grau de aversão ao risco.
Outro ponto relevante a ser discutido diz respeito a como o nível de riqueza afeta o apetite por risco dos agentes econômicos. Aqui não se pretende entrar em grandes discussões teóricas, mas apenas lembrar que não há um padrão comum, pois tal ação irá depender de como o nosso investidor reagirá, dado o seu estoque de riqueza.
As classificações possíveis são três. O investidor pode colocar mais recursos (ativos) em risco, na medida em que a sua riqueza aumenta; pode manter a mesma quantidade de recursos em risco; ou ainda, reduzir a quantidade de ativos em risco na medida em que a sua riqueza aumente.
O horizonte de tempo é outro ponto a ser considerado na hora de decidir como aplicar os recursos. Um dos direcionadores da alocação será, sem dúvida alguma, o tempo previsto para os investimentos. Diversos estudos mostram que as ações são imbatíveis no longo prazo. Difícil discordar, pois os números estão aí. Uma pergunta que pode surgir é: o que é longo prazo? A resposta não é tão simples, pois depende muito do momento que está sendo vivido.
A título de exemplo, quem entrou no mercado de ações nos Estados Unidos por volta de 1926 demorou quase dez anos para sair com o mesmo capital que entrou. Aqui, o longo prazo foi bem longo. A questão do horizonte de tempo é importante e trás implícita, de forma sutil, a relação risco x retorno. A máxima de que quanto maior o risco, maior o retorno, pode ser considerada válida no longo prazo. Para o curto prazo, para que seja verdadeira, falta a inclusão do termo "esperado". Assim, no curto prazo, um maior risco trás um maior retorno esperado.
Ainda precisamos caminhar muito em termos de educação financeira. Não só nós, os agentes econômicos, mas as próprias instituições que vendem ou negociam produtos de investimentos. Uma grande dificuldade prática é classificar o cliente em clusters que reflitam seu perfil de investidor. De um modo geral, uma parcela significativa dos investidores considera-se agressivo ou, na pior das hipóteses, moderados. E realmente o são, mas só até amargarem perdas patrimoniais.
A classificação do perfil do investidor exige um pouco mais do que a resposta de algumas perguntas básicas e gerais. Para complicar, grande parte da teoria econômica e financeira parte do pressuposto de que os investidores são racionais, agem de forma racional. Os modelos, criados sob esse paradigma não estão preparados para atuar, de forma satisfatória, nas situações onde o comportamento dos agentes sai do script. Em tal situação, vale a máxima: "O modelo é bom, mas nós quebramos porque o mercado não se comportou como deveria ter se comportado". O pior é que esse tal de mercado nem sempre se comporta como deve.
Fonte: Valor Econômico