sexta-feira, 16 de maio de 2008 Mercado de Ações

Quem disse que eu não entendo o que é bolsa?

1115600017 Quem monta uma pizzaria, uma butique ou uma pet shop vira dono de seu próprio negócio. Quem compra uma ação na bolsa de valores está levando uma pequena parte de uma empresa de terceiros, e passa a ser chamado de acionista minoritário. Ter em mãos uma ação é ser dono de uma fração do capital daquele negócio. Se a ação é ordinária, ou ON, dá direito a voto nas assembléias de acionistas da empresa. Quando a ação é preferencial, ou PN, o investidor entra na frente da fila na distribuição de lucros da companhia ou no reembolso do capital caso a empresa seja liquidada. Uma PN pode até dar direito a voto, mas ele será restrito.

Bem, se uma empresa põe uma parte dela mesma à venda, estaria de alguma forma em apuros? Não. Ir à bolsa é uma forma de se financiar como qualquer outra. Em vez de pegar um empréstimo num banco, obter mais dinheiro de seu controlador ou vender títulos de sua dívida (as debêntures), a companhia vai à bolsa para captar entre acionistas minoritários. Esse dinheiro pode ser usado para a construção de unidades fabris, para pesquisa de produtos e para aquisições, por exemplo. Só que as empresas com ações em bolsa são companhias abertas, que têm, em contrapartida a esse financiamento que pegaram, a obrigação de prestar constantemente ao mercado informações sobre o que estão fazendo. Se derem lucro, têm ainda de distribuir dividendos entre os acionistas minoritários.

O Brasil está vivendo um boom de aberturas de capital, ou seja, cada vez mais empresas estão se financiando na bolsa pela primeira vez. Em 2004, sete novas empresas passaram a ter suas ações listadas na Bovespa, com ofertas públicas iniciais, ou IPO (sigla em inglês para Initial Public Offering). O número subiu para nove em 2005 e pulou para 26 em 2006. Apenas nos quatro primeiros meses de 2007, foram mais 15. Eram empresas dos mais variados ramos de atuação, tamanhos, regiões e idades. O número de companhias que negociam ações em bolsa hoje - na casa das 400 - ainda não bateu o de 1994, o ano do Plano Real. Naqueles tempos, eram mais de 580. A explicação para o enxugamento está em parte no enxame de fusões que temos visto, e em parte na descrença de muitas empresas na captação de dinheiro em bolsa. Estas abandonaram o mercado e fecharam o capital. Mas o importante é que muitas estão voltando agora, enquanto outras se lançam à bolsa pela primeira vez.

O dinheiro vai para o caixa da empresa apenas quando a própria companhia vende ações diretamente ao mercado. Isso acontece em duas situações: a primeira é quando ela emite ações novas, fresquinhas, somente para estrear na bolsa. Se já estiver na bolsa e precisar captar dinheiro novamente, a companhia também pode criar um novo lote de ações e colocá-las no mercado, engordando seu caixa. Nesses dois casos, são distribuições primárias. Mas o acionista controlador da companhia pode decidir passar adiante uma parte de suas próprias ações, quer dizer, de papéis que podemos chamar de velhos. Nesse caso, é uma distribuição secundária, e o dinheiro vai para o bolso dele, não para o da empresa.

Uma vez na bolsa, as ações vão passar de mão em mão, nem a empresa nem o controlador terão poder sobre isso. Qualquer valorização ou perda no valor das ações ficará com os compradores e os vendedores. E quem decide o preço de um papel é o próprio mercado - que, claro, está sempre acompanhando e embutindo nos preços os passos da empresa em questão.

Podemos comparar a bolsa ao mercado de carros. A Volkswagen ou a Fiat vende um carro zero quilômetro pela internet ao consumidor, faz seu preço e embolsa o pagamento. Seria como o mercado primário. Quando esse consumidor se cansar do carro, vai colocar um anúncio nos classificados ou ir a uma agência de automóveis para encontrar um comprador. As duas partes envolvidas vão acertar o preço, e o dinheiro da venda fica com aquele indivíduo que era o dono original do carro. A Volkswagen ou a Fiat nada tem a ver com isso, nem receberá parte alguma da venda. É como se fosse o mercado secundário de ações.

Voltando às ações: de um lado, o investidor recebe os dividendos de empresas lucrativas, e, de outro, tem a chance de embolsar com a valorização de seus papéis na bolsa. Portanto, além de ajudar as empresas a se expandirem - gerando no país mais empregos, mais receita de impostos e até mais divisas em moeda estrangeira (no caso das companhias exportadoras) -, o investimento em ações faz com que cada cidadão consiga formar uma poupança de longo prazo, melhorando sua própria saúde financeira. Por tudo isso, um mercado de capitais fortalecido ajuda a economia do país a crescer.

Os negócios de compra e venda de ações já estiveram espalhados por bolsas de várias capitais do país, inclusive no Rio, mas tudo acabou convergindo para a Bolsa de Valores de São Paulo, a Bovespa. A Bovespa fiscaliza as empresas que têm ações no mercado, os negócios feitos entre compradores e vendedores e as próprias corretoras membros.

A negociação cada vez mais online de papéis foi enfraquecendo o antigo modo de ser da Bovespa, aquele em que punhados de operadores estressados, nó da gravata se desfazendo e dois telefones às mãos gritavam para comprar ou vender ações. O pregão viva-voz, que sempre deu charme às bolsas de valores - e, no fundo, contribuiu para construir no imaginário popular a idéia de que investir em ações era um grande jogo - é algo que não existe mais na Bovespa. No dia 30 de setembro de 2005, foi tocada pela última vez a campainha que religiosamente anunciava, todo dia útil, o início e o fim das operações no pregão viva-voz. Naquela época, as negociações ao vivo já não representavam nem 0,2% de todas as operações da bolsa.

A Bovespa já teve mais de mil operadores disputando as ordens de compra e venda de ações, em pé num salão que eles chamavam de “chão” da bolsa. Os operadores ficavam acompanhando as cotações e recebiam as ordens das corretoras pelo telefone. Gritavam “Comprei a tanto!” ou “Vendi a tanto!”, e o negócio estava sacramentado. Quando as atividades do pregão viva-voz foram aposentadas, os operadores que atuavam ao vivo não passavam de 40. Então, a Bovespa decidiu repetir um movimento que já tomara conta das bolsas européias, apesar de ainda resistir em Nova York. Concentrou todas as negociações em um sistema eletrônico chamado Mega Bolsa, e, desde então, comprar e vender ações tem sido apenas assim. No pregão eletrônico.

A evolução da Bovespa não se resume à forma de negociação das ações. A bolsa tem criado mecanismos para incentivar as empresas a se tornarem mais transparentes e a terem mais respeito pelo acionista minoritário. Assim, atraem mais investidores, de quem recebem uma confiança extra, e têm mais potencial de se valorizarem.

No fim de 2000, a Bovespa implantou os segmentos do Novo Mercado e dos níveis 1 e 2 de governança corporativa. As empresas que aderem ao Novo Mercado assinam um contrato em que aceitam regras mais rígidas do que as presentes na legislação brasileira, ampliando os direitos dos minoritários e melhorando a qualidade das informações prestadas. Todas as ações têm de ser ordinárias. As empresas do Novo Mercado são obrigadas a oferecer o tag along: se o controle for vendido, os minoritários têm de receber, por ação, um preço igual ou parecido ao que foi pago ao acionista principal. No Conselho de Administração, pelo menos 20% dos membros devem ser independentes. As informações financeiras da empresa - lucro ou prejuízo, receita, margem de ganhos etc. - precisam seguir padrões internacionais. No mínimo 25% do capital social da companhia têm de estar em circulação no mercado. Se houver conflitos societários, eles deverão ser resolvidos pela Câmara de Arbitragem do Mercado.

Tanto o Novo Mercado quanto o Nível 2 de governança corporativa trazem regras de transparência, de dispersão acionária e de equilíbrio de direitos entre controladores e minoritários. A principal diferença é que, no Nível 2, a companhia pode ter ações preferenciais em sua estrutura de capital. Já no Nível 1, vale apenas uma parte das regras de transparência e dispersão acionária. Não entra, por exemplo, a obrigação de divulgar balanços nos padrões internacionais.

É isso aí. Bons Investimentos e um BOM BRASIL para TODOS.

Fonte: InfoMoney 

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